Quem digita "quem inventou o Ozempic" espera um nome e uma data. A resposta honesta ocupa quarenta anos, três países e muitas mãos. O Ozempic é o nome comercial da semaglutida, um análogo do hormônio GLP-1, e a história dele começa bem antes da caneta, num laboratório que estudava o gene de um peixe.

Anos 1980: o gene que escondia o GLP-1
Em 1982, Joel Habener, do Massachusetts General Hospital, relatou o gene do glucagon do peixe-pescador. Ele foi buscar um peixe porque as diretrizes da época nos Estados Unidos restringiam a manipulação de genes de mamíferos. O gene mostrou que o glucagon nasce dentro de uma proteína maior e que essa proteína guardava um segundo peptídeo parecido com ele.
No ano seguinte, Graeme Bell, da Chiron Corporation, encontrou a mesma organização no gene do hamster e batizou o segundo peptídeo: peptídeo semelhante ao glucagon 1, ou GLP-1. O gene humano foi descrito logo depois. O nome carrega o glucagon porque a sequência do peptídeo se parece com a dele e porque os dois saem da mesma proteína.
1986 e 1987: o pedaço que faz o pâncreas liberar insulina
Svetlana Mojsov, química de peptídeos do mesmo hospital, foi atrás da resposta com a hipótese de uma versão mais curta do GLP-1 na mesa: sintetizou as duas versões, criou um jeito de separá-las e mostrou, em artigo de 1986 com Habener, que a forma curta existe na natureza, inclusive no intestino.
Em 1987, Mojsov, Habener e Gordon Weir, do Joslin Diabetes Center, demonstraram que essa forma curta faz o pâncreas de rato liberar insulina, enquanto a forma longa fica inerte. No mesmo ano, Jens Juul Holst, em Copenhague, isolou o peptídeo equivalente do intestino de porco e viu o mesmo efeito; Daniel Drucker, então pós-doutorando de Habener, mostrou que ele estimula o gene da insulina em células de rato; e um grupo de Londres infundiu o hormônio em voluntários e viu a insulina subir. O GLP-1 entrou para a família das incretinas, a mesma do GIP, e deixou de ser um pedaço de gene.

1992 a 2005: o desvio pelo lagarto
Para virar medicamento, o hormônio tinha um obstáculo: no sangue, o GLP-1 some em minutos, degradado por uma enzima e filtrado pelos rins. Em 1992, Habener e Mojsov publicaram com David Nathan um estudo em pessoas com e sem diabetes, o que fechou o caso de que o hormônio agia também em quem tinha a doença.
No mesmo 1992, John Eng, de um hospital de veteranos no Bronx, isolou do veneno do monstro-de-gila um peptídeo chamado exendina-4. A versão sintética dele, a exenatida, foi aprovada pela FDA em abril de 2005 com o nome Byetta, o primeiro medicamento da família. A semaglutida seguiu outro caminho, o do GLP-1 humano, e a história do lagarto tem um texto só dela.
2000 a 2010: o ácido graxo e a liraglutida
Na Novo Nordisk, Lotte Bjerre Knudsen procurava um GLP-1 que durasse mais no corpo. O caminho descrito no artigo dela foi prender um ácido graxo à molécula: ácidos graxos se ligam à albumina, uma proteína abundante no sangue, e o hormônio preso a ela demora mais para ser eliminado. O artigo de 2000 no Journal of Medicinal Chemistry, assinado por Knudsen e colegas, descreveu a série de compostos; o candidato escolhido ganhou o nome de liraglutida.
A liraglutida foi aprovada na Europa em 2009 e pela FDA em janeiro de 2010, como Victoza, para diabetes tipo 2. O truque do ácido graxo é o que a semaglutida herdou.
2015 a 2018: a semaglutida vira Ozempic
Outra equipe da mesma empresa, liderada pelos químicos Jesper Lau e Thomas Kruse, partiu da liraglutida. Trocou um aminoácido para proteger a molécula da enzima que degrada o GLP-1 e aumentou a afinidade pela albumina. O artigo que descreve a semaglutida saiu em 2015, também no Journal of Medicinal Chemistry, com Lau como primeiro autor e Knudsen entre os coautores.
A FDA aprovou a semaglutida para diabetes tipo 2 em 5 de dezembro de 2017, com o nome Ozempic; outras indicações aprovadas vieram depois, com outros nomes. No Brasil, a ANVISA concluiu o registro do Ozempic em 6 de agosto de 2018. De lá para cá a molécula ganhou outras caixas também por aqui: a base de dados abertos da ANVISA lista hoje quinze registros ativos de semaglutida, e entre eles há genéricos e similares nacionais de 2026.
2024: o prêmio Lasker
Em 2024, o prêmio Lasker-DeBakey de pesquisa médica clínica, dos Estados Unidos, foi para Joel Habener, Svetlana Mojsov e Lotte Bjerre Knudsen, pela descoberta e pelo desenvolvimento dos medicamentos baseados em GLP-1. A Lasker Foundation resumiu a divisão de trabalho: Habener e Mojsov identificaram a forma ativa do hormônio, e Knudsen a transformou em medicamento. A mesma página nomeia outros que fizeram contribuições-chave, entre eles Holst, Drucker e Eng.
Em 2025, o Breakthrough Prize em ciências da vida ampliou a lista: Drucker, Habener, Holst, Knudsen e Mojsov dividiram o prêmio. A Lasker Foundation publicou em janeiro de 2026 a nota de falecimento de Habener.
Então, quem inventou o Ozempic?
Ninguém sozinho. Um hormônio achado em laboratórios de hospital, de universidade e de empresa nos Estados Unidos, na Dinamarca e na Inglaterra; um truque químico de uma equipe de empresa; uma molécula desenhada por outra equipe da mesma empresa; e agências que aprovaram. O nome na caixa muda de país para país; a molécula, semaglutida, continua a mesma.
O que é de cada pessoa nessa história
A história do GLP-1 é longa e coletiva. O que é de cada pessoa é o próprio registro: qual caneta usa, quando aplicou e onde. No PepControl o cadastro é livre: você anota o peptídeo pelo nome da molécula, com uma cor, mesmo quando a caixa trouxer outro nome. Cada aplicação registrada vira um ponto em uma das cinco zonas do mapa do corpo, barriga, dois braços e duas coxas. Quem decide o uso é você. Conheça o PepControl.
Perguntas frequentes
Quem inventou o Ozempic?
Não há um inventor único. A semaglutida foi descrita em 2015 por uma equipe da Novo Nordisk liderada por Jesper Lau e Thomas Kruse, a partir de um hormônio identificado nos anos 1980. O Ozempic é o nome comercial dessa molécula.
Quem descobriu o GLP-1?
Habener relatou o gene do peixe em 1982; Bell deu o nome GLP-1 em 1983; Mojsov identificou a forma ativa em 1986 e 1987, com Habener e Weir. Holst, em Copenhague, publicou achados paralelos em 1987.
Quando o Ozempic foi aprovado?
Pela FDA, em 5 de dezembro de 2017. No Brasil, a ANVISA concluiu o registro em 6 de agosto de 2018.
O Ozempic vem do lagarto?
Não. O peptídeo do monstro-de-gila, a exendina-4, deu origem à exenatida, aprovada em 2005. A semaglutida é um análogo do GLP-1 humano, desenhado a partir da liraglutida.
O que é o prêmio Lasker?
Um prêmio de pesquisa médica dos Estados Unidos, dado pela Lasker Foundation. Em 2024, o Lasker-DeBakey de pesquisa clínica foi para Habener, Mojsov e Knudsen, pela descoberta e pelo desenvolvimento dos medicamentos baseados em GLP-1.
Onde isso está escrito
Lasker Foundation: página do prêmio de 2024 e nota In Memoriam de Joel Habener, 2026.
Nature, 1983, Bell; Journal of Biological Chemistry, 1986, Mojsov, e 1992, Eng; Journal of Clinical Investigation, 1987, Mojsov; FEBS Letters, 1987, Holst; PNAS, 1987, Drucker; Lancet, 1987, Kreymann; Diabetes Care, 1992, Nathan.
Journal of Medicinal Chemistry, 2000, Knudsen, e 2015, Lau.
Drugs@FDA: Byetta, 2005; Victoza, 2010; Ozempic, 2017.
Dados abertos da ANVISA, setembro de 2026; Breakthrough Prize Foundation, laureados de 2025.
O PepControl é uma ferramenta de organização pessoal. Não é serviço médico, não recomenda doses, não prescreve protocolos e não substitui acompanhamento profissional.
