Ilustração: sete formas de moléculas diferentes entre si, em azul e creme, dispostas em arco e ligadas por linhas finas a uma única etiqueta de papel em branco, sem nada escrito nela.

Quem responde depende de quem pergunta. Páginas de laboratório e de consultório dizem leptina. A cobertura das canetas emagrecedoras diz GLP-1. "Hormônio da saciedade" é apelido de divulgação, e nenhuma molécula leva esse nome no registro formal. Um lado responde leptina, o outro responde GLP-1, e as duas estão certas por motivos diferentes.

Leptina ou GLP-1: qual está na caneta

As duas existem, têm nome próprio e trabalham em relógios diferentes. O GLP-1 sai do intestino depois de uma refeição e fala do que acabou de acontecer. A leptina sai do tecido adiposo e fala do estoque de energia acumulado ao longo de dias e semanas. Uma delas fala do prato; a outra, do que ficou guardado.

Das duas, só o GLP-1 virou caneta. Na caixa, a semaglutida aparece descrita de dois jeitos, como análogo de GLP-1 e como agonista do receptor de GLP-1, e as duas palavras respondem a perguntas diferentes.

A leptina joga outro jogo. Ela sai do tecido adiposo do próprio corpo e leva ao cérebro um recado sobre as reservas de energia acumuladas, e nenhuma caneta emagrecedora a tem na fórmula. Foi ela que colocou o tecido adiposo nesta conversa: até 1994 a gordura era tratada sobretudo como depósito, e o gene identificado naquele ano mostrou que ela também manda recado.

Quem usa o apelido, e quem nunca usou

Na bula do Wegovy, uma das canetas de semaglutida, a substância aparece como "semelhante a um hormônio natural denominado peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1), liberado pelo intestino após uma refeição". Repare no arranjo: o hormônio ali é o GLP-1, e a semaglutida é descrita por comparação com ele. O vocabulário muda de laboratório para laboratório, e nenhum deles escreve "hormônio da saciedade".

A expressão circula em reportagem, em rede social e em conteúdo de terceiros, e some no caminho até o papel dobrado dentro da caixa. Ela sempre funcionou como descrição solta. Cada uma dessas moléculas tem nome próprio, e é por ele que aparece no registro formal. O apelido também não existe no vocabulário de indexação da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, que é onde a literatura da área se organiza por assunto.

Os outros nomes que já receberam o mesmo apelido

Pelo menos dez moléculas diferentes já foram chamadas de "hormônio da saciedade" em título de artigo revisado por pares. A primeira foi a insulina, em 1980. Depois vieram a colecistocinina, a leptina, o peptídeo YY, a uroguanilina, a nesfatina-1, o LEAP2, o GIP e uma proteína de mosca-das-frutas. O GLP-1 é o mais novo da fila: recebe o apelido em título pela primeira vez em 2024, num artigo de retrospectiva, quarenta e quatro anos depois da insulina.

A própria literatura já tratou o apelido como pergunta em aberto. Em 1993, um artigo perguntou no título se a colecistocinina era um "hormônio da saciedade". Em 1996, uma revista polonesa fez a mesma pergunta sobre a leptina, ponto de interrogação incluído. Nos dois casos a pergunta ficou no ar, e o apelido seguiu viajando.

O inglês ainda separa duas palavras onde o português junta tudo em "saciedade": satiation nomeia o processo que encerra a refeição, satiety nomeia a sensação que dura depois. O apelido cobre as duas de uma vez, e isso ajuda a explicar por que ele coube em tanta molécula diferente.

Quase todas saem do tubo digestivo, e quase todas são peptídeos, cadeias curtas de aminoácidos que o corpo usa para levar recado de um órgão a outro. Os nomes delas contam de onde vieram:

  • Leptina. Gene identificado em 1994, na Universidade Rockefeller, e molécula nomeada logo depois, a partir do grego leptós, que quer dizer fino. É a única desta lista cuja origem principal fica fora do tubo digestivo.

  • Colecistocinina, a CCK. O nome traz o endereço: colecisto é a vesícula biliar, e a terminação fala de movimento. Sai do intestino, das células I, quando a comida chega, manda a vesícula se contrair e participa do sinal que encerra a refeição.

  • Peptídeo YY, o PYY. Isolado e batizado por Tatemoto e Mutt, na Nature, em 1980, a partir do intestino delgado alto. Os dois Y vêm dos resíduos de tirosina nas duas pontas da cadeia, e Y é a abreviação química da tirosina.

  • GIP. Outro hormônio que o intestino solta quando a comida passa, e cuja sigla já foi lida de duas maneiras diferentes.

Ilustração vista de cima: uma caixa de remédio azul, completamente sem rótulo, ao lado de uma folha de papel dobrada e aberta, também em branco, e de um vial pequeno de tampa lisa.

A grelina, e o nome que fala de crescer

A grelina foi isolada do estômago e publicada na Nature em dezembro de 1999, por Kojima e colaboradores. Ela vem de um tipo específico de célula das glândulas oxínticas, e a literatura a descreve como orexígena, ligada ao estímulo do apetite.

A raiz do nome é "ghre", do proto-indo-europeu, e significa crescer. Os próprios autores declararam a etimologia: a molécula libera hormônio do crescimento, e foi essa ação que batizou a palavra. O público conhece a grelina pela fome, e as listas de "hormônio da saciedade" que circulam por aí a entregam ao apelido mesmo assim. Serve de retrato do assunto inteiro: dez moléculas dividindo um nome que nenhuma delas tem no registro, e uma décima primeira levando de brinde um apelido que descreve o lado oposto.

A lista de nomes acaba aqui. O que essas palavras descrevem por dentro, e por que fome e apetite não funcionam como sinônimos na conversa de quem usa, é outra conversa.

Nome de divulgação muda de reportagem para reportagem, o que circula nos grupos é outro, e a caixa traz um terceiro. O registro que a pessoa faz em casa é onde essa troca para, e ele envelhece melhor quando traz o nome da molécula, que não muda de fabricante nem de país. No PepControl o cadastro é livre, com o nome e a cor que você escolher para o que usa, e cada aplicação registrada vira um ponto no mapa do corpo e uma linha no histórico.

Ilustração de uma pessoa sentada à mesa da cozinha à noite, sob a luz de um abajur, olhando o celular na mão. Na tela há apenas formas arredondadas azuis, sem nada escrito. Sobre a mesa, uma caixa azul sem rótulo e um caderno fechado.

Perguntas frequentes

Qual é o "hormônio da saciedade"?

Não existe um só. Pelo menos dez moléculas diferentes já receberam esse apelido em título de artigo revisado por pares, entre elas a insulina, a colecistocinina, a leptina, o peptídeo YY e o GLP-1. A expressão é de divulgação e não identifica molécula nenhuma no registro formal.

Qual a diferença entre leptina e GLP-1?

As duas falam de escalas de tempo diferentes. O GLP-1 sai do intestino depois de uma refeição e sinaliza o que acabou de acontecer. A leptina sai do tecido adiposo e sinaliza o estoque de energia acumulado ao longo de dias e semanas.

GLP-1 é o "hormônio da saciedade"?

É um dos que recebem o apelido, e recebeu tarde: o primeiro título de artigo revisado por pares a chamá-lo assim é de 2024, quarenta e quatro anos depois do primeiro, que falava de insulina.

A grelina é o "hormônio da saciedade"?

Não. A grelina responde pela fome, e o nome dela vem de uma raiz que significa crescer, por causa da liberação de hormônio do crescimento. Mesmo assim ela aparece com frequência nas listas de "hormônio da saciedade" que circulam por aí.

O que quer dizer leptina?

Vem do grego leptós, que quer dizer fino. Quem escolheu o nome foi Jeffrey Friedman, em cujo laboratório o gene foi identificado em 1994. O artigo original, publicado na Nature em dezembro daquele ano, ainda não usa a palavra.

O PepControl é uma ferramenta de organização pessoal. Não é serviço médico, não recomenda doses, não prescreve protocolos e não substitui acompanhamento profissional.

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João, criador do PepControl

Sobre o Autor

João, criador do PepControl

Criei o PepControl para resolver o meu próprio problema de controle: eu usava peptídeos e vivia perdendo a conta de onde tinha aplicado e de quanto restava no vial. Aqui escrevo sobre a parte prática dessa rotina, não sobre o que você deve fazer.

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