Ilustração de cinco formas escultóricas em fila sobre fundo creme, cada uma com um corpo diferente, uma esfera, uma facetada, uma alta e fina, uma achatada e uma escalonada, e todas as cinco apoiadas

Semaglutida, liraglutida, dulaglutida, exenatida, tirzepatida. Cinco moléculas diferentes, de empresas diferentes, e todas terminam igual. Esse final foi escolhido por uma regra internacional, e dá para aprender a ler.

Quem dá nome a uma molécula

O nome em letras pequenas embaixo da marca, na caixa, vem de um programa da Organização Mundial da Saúde que publicou sua primeira lista em 1953 e desde então atribui a cada substância um nome único, válido no mundo inteiro. Eram 10.682 nomes até 2024.

A empresa que desenvolveu a molécula propõe o nome, mas quem decide é um grupo de especialistas da OMS, e o nome aprovado é de domínio público: ninguém pode registrá-lo como marca.

A palavra é montada em duas partes

Um nome desses tem um prefixo inventado e um radical comum no fim. O prefixo ("sema-", "lira-", "tirze-") é a parte livre, sugerida por quem desenvolveu a molécula. Ele existe para distinguir: precisa soar diferente de tudo que já foi batizado antes, para que ninguém troque um nome pelo outro na hora de receitar. Por isso ele costuma não querer dizer coisa nenhuma.

O radical é a parte imposta pelo sistema, e é ele que carrega a informação: a OMS define que os radicais indicam o grupo a que a substância pertence. A própria OMS chega a ditar a ortografia dessas palavras, para que sejam pronunciáveis em qualquer idioma, e é por isso que todas soam parentes.

O que o "-tida" está dizendo

Na lista oficial de radicais da OMS, o "-tide" tem uma definição de três palavras: peptídeos e glicopeptídeos. Só isso. O final do nome declara de que tipo de molécula se trata.

Por isso ele aparece em assuntos sem nenhuma relação entre si. Na lista brasileira de nomes de substância, mais de setenta terminam em "-tida", entre eles a octreotida, a teriparatida e a enfuvirtida. O que as três têm em comum com a semaglutida é a estrutura química, que é justamente o que a palavra peptídeo nomeia: uma cadeia curta de aminoácidos.

Os sobrenomes dentro do "-tida"

Dentro do radical geral, a OMS mantém radicais mais finos:

  • -glutide, que nos nomes em português aparece como "-glutida": análogos de GLP. Semaglutida, liraglutida, dulaglutida.

  • -enatide, o nosso "-enatida": agonistas do receptor de GLP-1 do tipo exenatida. Exenatida, lixisenatida.

  • -dutide, o "-dutida": agonistas duplos do receptor de GLP-1 e do receptor de glucagon.

Repare no detalhe do "-glutida": a definição da OMS diz GLP, sem número. A teduglutida carrega o mesmo radical e é análoga de GLP-2, como a Anvisa descreve, e nada tem a ver com caneta.

Tirzepatida: o radical que a OMS criou depois

A tirzepatida termina em "-tida" e nunca carregou o "-glutida".

No livro de radicais que a OMS publicou em 2024, o nome dela aparece uma vez só, e no radical geral: numa rubrica genérica de antidiabéticos, longe das listas de análogos de GLP. Até ali, o final da palavra informava uma coisa apenas, que a molécula é um peptídeo.

Ilustração em close de cinco formas arredondadas lado a lado sobre fundo creme, quatro delas iguais entre si e em azul-claro, e a segunda da direita com um lóbulo a mais e em azul vivo.

Em fevereiro de 2026 a OMS publicou um adendo criando um radical novo, o "-patide", para agonistas do receptor de GIP, com ou sem atividade no receptor de GLP-1, e listou a tirzepatida entre os exemplos. Nomeada em 2018, ela virou o exemplo mais velho de um radical criado oito anos depois. A molécula seguiu a mesma. A nomenclatura correu atrás dela.

Lendo as duas palavras hoje: "sema-" mais "-glutida" diz peptídeo análogo de GLP; "tirze-" mais "-patida" diz peptídeo agonista do receptor de GIP.

O radical descreve a molécula

Caneta de insulina também é caneta, e insulina glargina não termina em "-tida". As insulinas seguem uma nomenclatura própria, e o formato do dispositivo nunca entrou nessa conta.

No mesmo adendo de 2026, a OMS criou o radical "-glipron" para agonistas do receptor de GLP-1 que não são peptídeos. Moléculas desse grupo miram o mesmo receptor das canetas e ficam sem o "-tida", porque o radical descreve a química. Pelo mesmo motivo, a semaglutida em comprimido continua semaglutida.

Ilustração de uma pessoa vista de lado e do peito para baixo, sem o rosto no quadro, colocando uma pequena ficha creme numa fileira de fichas iguais já em pé numa bandeja rasa.

Como ler um nome que você nunca viu

A leitura é sempre a mesma. Corte o fim da palavra: terminou em "-tida", tem peptídeo ali. Olhe então o pedaço logo antes do fim, que é o que estreita a família, como em "-glutida", "-enatida" e "-patida". O que sobra na frente é o nome próprio daquela molécula, e esse pedaço foi inventado para ser único.

O sistema funciona igual fora deste assunto. A enfuvirtida termina em "-tida" e traz "-vir-" no meio, o radical dos antivirais: mesmo final da semaglutida, e nada em comum além de serem peptídeos. É o mesmo tipo de leitura que agrupa remédios que as pessoas já reconhecem de ouvido pelo fim do nome, como "-prazol", "-ciclina" e "-vastatina".

Por que aqui é "-tida" e lá fora é "-tide"

O nome que a OMS publica em inglês chega ao Brasil traduzido. Aqui ele se chama Denominação Comum Brasileira, e a regra da Anvisa manda que ele convirja com o nome internacional e obedeça à grafia e à fonética do português do Brasil. A Anvisa publica a tabela de tradução, e nela a terminação inglesa "-ide" vira "-ida", como em bicalutamide, que virou bicalutamida.

Perguntas frequentes

O que significa o final "-tida" no nome das canetas?

Que a molécula é um peptídeo. Na lista oficial de radicais da OMS, o "-tide", que em português vira "-tida", tem a definição "peptídeos e glicopeptídeos".

Semaglutida e tirzepatida são da mesma família?

O nome das duas responde. A semaglutida carrega "-glutida", o radical dos análogos de GLP. A tirzepatida carrega "-patida", radical que a OMS criou em fevereiro de 2026 para agonistas do receptor de GIP, com ou sem atividade em GLP-1. Mesmo radical geral de peptídeo, sub-radicais diferentes.

Quem escolhe o nome de um remédio?

São dois nomes e dois donos. O da molécula sai do programa de denominações comuns da OMS e é de domínio público. O comercial é criado pela empresa.

Por que em inglês é "semaglutide" e em português "semaglutida"?

Porque a Anvisa traduz o nome internacional para a grafia e a fonética do português do Brasil. A tabela oficial converte a terminação "-ide" em "-ida".

Toda caneta termina em "-tida"?

As canetas de GLP-1 sim, porque a molécula dentro delas é um peptídeo. A caneta de insulina fica de fora: insulina glargina e insulina lispro têm nomenclatura própria.

O que levar daqui

Um nome de molécula funciona como uma frase curta: o começo identifica, o fim classifica. Quem aprende a ler o fim olha para uma palavra nova e já sabe a que família ela pertence. E, por ser o mesmo no mundo inteiro, é esse nome que sobrevive à troca de fabricante, de apresentação e de país. A palavra grande na caixa é criação da empresa e muda de um fabricante para outro; a pequena embaixo é a mesma em qualquer lugar.

Vale também para a anotação que você faz em casa. Registro feito pelo apelido envelhece mal; registro feito pelo nome da molécula continua legível daqui a um ano. No PepControl o cadastro é livre: você registra qualquer peptídeo pelo nome, com uma cor própria, e é esse nome que aparece no histórico. Conheça o PepControl.

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João, criador do PepControl

Sobre o Autor

João, criador do PepControl

Criei o PepControl para resolver o meu próprio problema de controle: eu usava peptídeos e vivia perdendo a conta de onde tinha aplicado e de quanto restava no vial. Aqui escrevo sobre a parte prática dessa rotina, não sobre o que você deve fazer.

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