Veneno da jararaca, remédio de pressão: a ligação entre os dois existe e começa no Brasil. Ela passa por laboratórios em São Paulo, em Ribeirão Preto e nos Estados Unidos, e termina numa molécula pequena chamada captopril.
A versão que circula encurta tudo para "o remédio é feito de veneno". Os artigos da época contam uma história melhor, e ela começa num laboratório de São Paulo.
1949: o veneno de cobra e a bradicinina
Em 1949, Maurício Rocha e Silva, Wilson Beraldo e Gastão Rosenfeld, em São Paulo, descreveram uma substância nova. Ela é liberada de uma proteína do plasma pela ação de venenos de cobra e da tripsina, uma enzima digestiva. O nome escolhido foi bradicinina.
O nome vem do grego: "bradys", lento, e "kinein", mover. No experimento, a substância fazia um pedaço de intestino de cobaia se contrair devagar. A bradicinina é um peptídeo, uma cadeia de nove aminoácidos produzida pelo próprio organismo.
1965: Sérgio Ferreira e o fator da jararaca
Dezesseis anos depois, em Ribeirão Preto, o médico Sérgio Henrique Ferreira publicou um artigo de título direto: "um fator potenciador da bradicinina (BPF) presente no veneno de Bothrops jararaca". Ferreira era do grupo de Rocha e Silva, que tinha trocado São Paulo por Ribeirão Preto.
A palavra de 1965 era "fator": alguma coisa no veneno aumentava o efeito da bradicinina, e essa coisa ainda não tinha nome próprio. Nos anos seguintes, o grupo de Ferreira isolou do veneno os responsáveis, que passaram a ser chamados de peptídeos potenciadores da bradicinina.

Como a pesquisa chegou à Squibb
O fio seguinte passa pelo farmacologista John Vane, que trabalhava em Londres e era consultor da Squibb, empresa americana. Vane sugeriu à empresa uma colaboração com Ferreira, seu colega. O laboratório de Vane tinha indícios de que o veneno também inibia a enzima conversora de angiotensina, a ECA, embora na época não estivesse claro se as duas atividades tinham relação.
Pelo relato de David Cushman, pesquisador da Squibb, a colaboração nunca aconteceu: o grupo de Ferreira isolou os peptídeos potenciadores da bradicinina, e a Squibb isolou por conta própria peptídeos do mesmo veneno que inibiam a ECA. Um deles, o teprotide, foi o primeiro inibidor da ECA estudado em pessoas com hipertensão, e tinha um limite prático: não servia por via oral.
O captopril é feito de veneno?
O captopril tem um quinto do tamanho do teprotide e, a rigor, nenhuma ligação peptídica. É uma molécula pequena, sintetizada em laboratório e derivada de um único aminoácido, a prolina. Os peptídeos do veneno são cadeias de vários aminoácidos ligados entre si; sem essas ligações, o captopril fica fora da família dos peptídeos.
O papel do veneno foi o de molde. Versões sintéticas dos peptídeos do veneno mostraram qual ponta se encaixa melhor na enzima: a sequência formada por fenilalanina, alanina e prolina. Para Miguel Ondetti, químico da equipe, o que se aprendeu modificando o teprotide foi uma informação "chave, ainda que indireta" sobre a arquitetura do sítio ativo da ECA, o ponto da enzima onde ela trabalha.
O passo que faltava veio de outro lugar. Em março de 1974, Ondetti e Cushman chegaram à ideia de uma molécula simples que ocupasse o sítio ativo da ECA. O ponto de partida foi um inibidor de outra enzima, a carboxipeptidase A. Em 1977, a equipe descreveu a nova classe, os derivados da prolina, desenhados a partir de um modelo hipotético desse sítio ativo. No laboratório, esses compostos aumentavam a resposta de um tecido à bradicinina, o mesmo efeito que tinha chamado a atenção de Ferreira no veneno.
Juntando as peças: o veneno da jararaca abriu o caminho e ajudou a mapear a enzima, e o captopril foi desenhado para ocupar o mesmo ponto da ECA onde os peptídeos do veneno se encaixavam.
Por que tantos remédios de pressão terminam em "-pril"
O captopril ganhou parentes, e os nomes entregam o parentesco: enalapril, lisinopril, ramipril. O "-pril" é um radical da lista da Organização Mundial da Saúde, reservado aos inibidores da enzima conversora de angiotensina, e o captopril está nessa lista. É o mesmo sistema que faz as moléculas das canetas emagrecedoras terminarem em "-tida", como mostra o texto sobre por que semaglutida e tirzepatida terminam igual.

Outro veneno, outro caminho: a primeira caneta
Da jararaca saiu um mapa da enzima; do veneno do monstro-de-gila, um lagarto do deserto americano, saiu o próprio peptídeo, fabricado por síntese como exenatida, o primeiro agonista do receptor de GLP-1 a virar medicamento, como conta a história do lagarto e do Ozempic. A exenatida foi aprovada pela FDA em 2005, com o nome comercial Byetta. A semaglutida, molécula do Ozempic, tem outra origem: foi construída a partir do GLP-1 humano.
Perguntas frequentes
Qual remédio veio da pesquisa com o veneno da jararaca?
O captopril, descrito pela equipe da Squibb em 1977. Os peptídeos do veneno ajudaram a mapear a enzima que ele inibe, e a molécula final foi desenhada em laboratório.
O captopril tem veneno de cobra na fórmula?
O captopril é uma molécula sintética e pequena, derivada do aminoácido prolina e sem nenhuma ligação peptídica. O veneno entrou na pesquisa que veio antes, como ferramenta para entender a ECA.
Para que serviu o veneno da jararaca na pesquisa?
Serviu de ferramenta de laboratório. Estudando esse veneno, Ferreira descreveu em 1965 o fator potenciador da bradicinina, e versões sintéticas dos peptídeos do mesmo veneno ajudaram a Squibb a entender a ECA.
O Brasil recebeu royalties pelo captopril?
Não houve royalties para a universidade nem para o país, segundo uma tese defendida na USP em 2019, que também registra que Ferreira não participou do patenteamento. Uma patente americana de 1977 que inclui o captopril foi registrada em nome da Squibb, com Ondetti e Cushman como inventores.
O nome da molécula no registro
Nome de molécula guarda a história de onde ela veio, e o sufixo conta de que família ela é. Para quem usa peptídeo ou caneta emagrecedora, esse também é o nome que continua legível no histórico daqui a um ano, mesmo que a caixa mude de nome. No PepControl, o cadastro é livre: qualquer peptídeo entra pelo nome que você escrever, com uma cor própria, e o registro guarda exatamente o nome que você escolheu. Conheça o PepControl.
Onde isso está escrito
Rocha e Silva M, Beraldo WT, Rosenfeld G. American Journal of Physiology, 1949, 156(2):261-273.
Ferreira SH. British Journal of Pharmacology and Chemotherapy, 1965, 24(1):163-169.
Ferreira SH, Rocha e Silva M. Experientia, 1965, 21(6):347-349.
Ondetti MA, Rubin B, Cushman DW. Science, 1977, 196(4288):441-444.
Cushman DW, Ondetti MA. Nature Medicine, 1999, 5(10):1110-1112.
Bakhle YS, Ferreira BR. Toxins, 2023, 15(9):522.
Patente americana US 4.046.889, titular E.R. Squibb and Sons, publicada em 06/09/1977 (consulta em 24/09/2026).
Leme MAWP. As investigações de Sérgio Henrique Ferreira em Bothrops jararaca e seus desdobramentos (1965-1972). Tese, USP, Ribeirão Preto, 2019.
Organização Mundial da Saúde. Stem Book 2024, radical "-pril".
FDA, Drugs@FDA: Byetta (exenatida), aprovação em 28/04/2005.
O PepControl é uma ferramenta de organização pessoal. Não é serviço médico, não recomenda doses, não prescreve protocolos e não substitui acompanhamento profissional.
